TTR Dealmaker Q&A com
Marcelo Droghetti, sócio de Societário, Fusões e Aquisições do Lobo de Rizzo

Marcelo Droghetti
Lobo de Rizzo
Marcelo é sócio da prática de Societário, Fusões e Aquisições do Lobo de Rizzo. É especialista em direito societário, com vasta experiência em operações domésticas e cross-border envolvendo fusões e aquisições, estruturação de contratos empresariais, reorganizações societárias e investimentos estrangeiros, além de temas relacionados a instituições financeiras.
1. Novo ciclo de M&A no Brasil
TTR: O mercado de M&A no Brasil apresentou uma recuperação relevante em valor transacionado ao longo de 2025, impulsionada por operações de maior porte e por uma maior participação de capital internacional. Na sua visão, quais fatores estão explicando esse novo ciclo de atividade e o que diferencia o mercado atual em relação aos últimos dois anos?
Vemos o mercado de M&A no Brasil impulsionado por uma combinação de fatores macroeconômicos e estruturais. De um lado, o cenário global de maior incerteza – com tensões geopolíticas, volatilidade e reorganização de cadeias produtivas – tem levado investidores internacionais a buscar geografias com maior potencial de crescimento e diversificação, o que recoloca o Brasil de forma relevante no radar de capital estrangeiro, em especial para investidores acostumados com o ambiente de negócios no Brasil.
Adicionalmente, o ciclo prolongado de juros elevados nos últimos anos gerou uma reprecificação de ativos, criando oportunidades especialmente em empresas de qualidade que atravessaram esse período com níveis mais altos de alavancagem. Isso abriu espaço para investidores capitalizados ou concorrentes estratégicos capturarem valor em operações estruturadas.
Por fim, ainda observamos um ambiente favorável para consolidação em diversos setores da economia. Após um período em que o valor transacionado esteve concentrado em um número menor de operações, há espaço para movimentos de escala, integração e ganho de eficiência, especialmente em setores fragmentados.
O resultado é um mercado que combina retomada de atividade com maior sofisticação: menos volume, maior ticket médio e transações com racional estratégico mais claro, refletindo uma abordagem mais disciplinada por parte dos investidores.
2. Setores líderes e oportunidades
TTR: Tecnologia, energia, infraestrutura, agronegócio e serviços financeiros concentraram boa parte do dinamismo transacional recente no Brasil. Quais setores devem liderar a agenda de M&A nos próximos meses e onde estão hoje as oportunidades mais atrativas para investidores estratégicos e fundos de private equity?
Esses setores devem seguir como tendência nos próximos anos. O setor de tecnologia tende a liderar o pipeline de transações, impulsionado pela adoção de inteligência artificial e pela digitalização contínua dos negócios. Energia e infraestrutura devem seguir como vetores relevantes, com destaque para projetos ligados à transição energética, descarbonização e modernização de ativos. O agronegócio – e o setor de alimentos de uma forma geral – e seus setores correlatos tendem a manter forte protagonismo, refletindo o potencial do país e o interesse de investidores estratégicos e financeiros. Por fim, o setor de serviços financeiros deve apresentar oportunidades relevantes de consolidação e inovação, em linha com o nível de sofisticação e competitividade do mercado brasileiro.
3. Impacto do cenário global
TTR: O Brasil continua sendo um dos principais destinos de investimento na América Latina, mas o cenário global segue marcado por tensões geopolíticas, volatilidade cambial, inflação e maiores exigências regulatórias. Como esses fatores estão impactando a execução das transações e o apetite dos investidores pela região?
A conjuntura global segue impactando o ambiente de M&A de forma transversal. Nesse contexto, investidores com histórico de atuação no Brasil tendem a demonstrar maior capacidade de ajustar suas estratégias a variáveis como volatilidade cambial, inflação e custo de capital, incorporando esses elementos de forma mais eficiente nos processos de avaliação e tomada de decisão. No Brasil, o calendário eleitoral de 2026 pode implicar maior cautela na tomada de decisões estratégicas.
4. Principais desafios atuais
TTR: Nos últimos trimestres, o mercado brasileiro passou a apresentar um perfil mais seletivo, com processos de due diligence mais aprofundados e negociações mais sofisticadas em termos de riscos, compliance e estrutura contratual. Quais são hoje os principais desafios jurídicos e estratégicos enfrentados por empresas e assessores no fechamento de operações no Brasil?
O atual cenário político e econômico adiciona um grau relevante de complexidade à negociação e ao fechamento das operações. Observa-se uma postura mais cautelosa dos investidores, refletida em processos de due diligence mais aprofundados, com foco ampliado em temas regulatórios, ambientais e de conformidade, bem como na verificação da adequada execução de contratos e do cumprimento de obrigações de forma geral.
A reforma tributária surge como um fator adicional a ser considerado, impactando a precificação dos ativos e a projeção de resultados.
O ambiente de juros elevados também influencia a dinâmica das transações, especialmente no que diz respeito ao custo e à disponibilidade de financiamento.
5. Capital internacional e competição
TTR: O capital internacional continua desempenhando um papel relevante no mercado brasileiro, especialmente em operações cross-border. Na experiência de Lobo de Rizzo, quais tipos de ativos ou empresas brasileiras vêm despertando maior interesse de investidores estrangeiros e como está evoluindo a competição por esses ativos?
O investimento estrangeiro segue sendo um vetor relevante no mercado brasileiro, sobretudo em transações de maior porte e em segmentos considerados estratégicos. Nesse contexto, setores como energia – com destaque para renováveis –, tecnologia e infraestrutura devem continuar entre os principais polos de atração de capital, com crescente competitividade por ativos de qualidade, especialmente aqueles com perfil resiliente, escala relevante e potencial de geração de valor no longo prazo. O interesse em plataformas de geração de energia renovável e em ativos relacionados a data centers reflete tendências estruturais de transição energética e digitalização.
6. Perspectivas para 2026
TTR: Olhando para 2026, quais são as perspectivas para o mercado de M&A no Brasil e na América Latina? Vocês esperam um ambiente mais favorável para a tomada de decisões e execução de operações ou acreditam que o mercado continuará priorizando transações estratégicas e altamente seletivas?
As perspectivas para 2026 indicam uma retomada gradual da atividade. O ambiente deve permanecer marcado por disciplina na alocação de capital, rigor nos processos de due diligence e foco na qualidade e na geração de valor dos ativos. A expectativa é de que o mercado de M&A no Brasil ganhe tração ao longo do ano, em particular com maior clareza em relação ao cenário político e macroeconômico no período pós-eleitoral. Ainda assim, as transações estratégicas tendem a privilegiar ativos resilientes, com boa governança e fundamentos sólidos.